Eu estava mesmo cansado de me bater na terceira parede, o jeito era treinar.
A intangibilidade tinha uma desvantagem tão grande que eu me perguntava, as vezes, por que eu não era um cara normal.
Sabe, sem poderes = sem ficar a beira da morte e contando com isso.
Então ali estava eu num beco fedendo a mijo e restos, cheiro típico da hipocrisia da liberdade capitalista. Tentando atravessar pela terceira vez a lata de lixo.
Claro que eu sabia que não dava para ficar preso no lixo, ia ser uma droga daquelas muito horríveis, mas eu precisava evoluir naquilo.
Senti as moléculas vibrando, mas não vibravam com tanta agitação quanto deviam, meu corpo fraco queria cambalear para algum sofá qualquer e adormecer por ali, mas eu devia tentar.
Passei pelo primeiro lado do metal, eu senti atravessar e aquilo doeu um pouco. Continuei, mas correndo. Meu corpo estava estranho e as moléculas imploravam para parar, eu quase não conseguia me mover e me manter intangível. senti algumas coisas me tocarem por dentro e mesmo tendo passado apenas um segundo até eu atravessar, não foi o suficiente.
O sabor de sangue invadiu minha boca, havia alguns hematomas, mas era só um cuspe de sangue e hematomas, nada mais grave.
Deitei no chão frio e então dormi.
Acordei com o sol de 12:00am no meu juízo. Resolvi fazer algo da vida, estava dolorido e aquilo me pareceu ótimo, é preciso aumentar os limites do corpo e quando tudo parece impossível, realizar o que outros nem pensariam.
Peguei o bastão que havia deixado no canto do beco e comecei a usá-lo como apoio e arma, alternando entre golpes de artes marciais e esquivas, sempre uma coisa e outra, levando meu corpo ao extremo e sentindo os meus músculos queimando. Senti a dor num desespero infantil, mas não parei, continuei me movendo agilmente até apagar outra vez naquele lugar imundo.